Araras versáteis (Hilda Hilst)

Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii…
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.

Da sedução dos anjos (Bertolt Brecht)

Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.
Puxa-o só para dentro de casa e mete-
-Lhe a língua na boca e os dedos sem frete
Por baixo da saia até se molhar
Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia
E fode-o. Se gemer, algo crispado
Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado
P’ra que do choque no fim te não caia.

Exorta-o a que agite bem o cu
Manda-o tocar-te os guizos atrevido
Diz que ousar na queda lhe é permitido
Desde que entre o céu e a terra flutue �

Mas não o olhes na cara enquanto fodes
E as asas, rapaz, não lhas amarrotes.

Goan Fragoso por Raphael Lucena/Styling: Rogério S. Nin Magazine #2

Lançamento da nossa segunda edição, terça 10 de Maio, na Livraria da Travessa Botafogo. COME WITH US

 https://www.facebook.com/events/108245059589066/

https://www.facebook.com/events/108245059589066/


Gloire de Dijon
by D. H. Lawrence

When she rises in the morning
I linger to watch her;
She spreads the bath cloth underneath the window
And the sunbeams catch her
Glistening white on the shoulders,
While down her sides the mellow
Golden shadow glows as
She stoops to the sponge, and her swung breasts
Sway like full blown yellow Gloire de Dijon roses.

She drips herself with water, and her shoulders
Glisten as silver, they crumple up
Like wet and falling roses, and I listen
For the sluicing of their rain dishevelled petals.
In the window full of sunlight
Concentrates her golden shadow
Fold on fold, until it glows as
Mellow as the glory roses.

audio Block
Double-click here to upload or link to a .mp3. Learn more

sábado de carnaval

 

Ela disse que estava com aquela blusa desde as 8 da manhã, era Bon Jovi, ou Led Zeppelin, era sábado de carnaval.
Lembro da boca grande e grossa que zombava com cara de quem se sabia mais esperta que eu, ali, enfiada numa melindrosa com cheiro de 10 carnavais atrás.
Ela tinha quinze anos a menos e os cabelos loiros que caiam sobre os peitos já adultos, grandes e conscientes, duros e sem sutiã.
Era sábado de carnaval e a onda do MD batia junto com uma quase maturidade que me alarmava, mas ela tinha as pernas enormes, grossas e peladas num short jeans minúsculo.
Era sábado de carnaval e ela não usava nenhuma fantasia. Ela tinha ultrapassado uns três drinks e eu precisava de uns dois a mais. Era sábado de carnaval e as ruas estavam tomadas de um cheiro estranho de maconha, mijo, vômito e cerveja, menos ela.
Ela tinha um cheiro de suor e puberdade que eu preferia sentir entre as curvas da virilha, entre pentelhos loiros, espessos e espalhados, enquanto a bebia com a sede de um sábado de carnaval.
Ela sabia de tudo. Da boca, da cara, dos peitos-monumentos que dançavam entre os cachos do seu cabelo. Da minha vontade de lhe escalar as pernas e chupa-la ali.
Seguíamos juntas e desconhecidas um cortejo de gatos pingados que vibrava na mesma nota exaustão e euforia. Ela ostentava em pele e atitude tudo o que eu escondia,
e me desafiava seguindo num silêncio irritante de quem sempre sabe pra onde vai. Eu só seguia.
Era qualquer lugar escuro e perigoso perto da Praça Tiradentes, ela jogou sua boca na minha e se agarrou nos meus peitos pequenos enquanto eu enfiava meus dedos no seu rabo suado.
Desabamos numa escada suja, onde provamos cada gota de suor e gozo, eram 5 horas da manhã do sábado de carnaval. Já era domingo perto dali.

Maybe - por Flávia Orlando

Nossas peles livres se conhecendo, se combinando e ficando íntimas, ondas das mesmas sensações se transmitindo pelos dois corpos, chega um momento em que sexo deixa de ser só sexo, um estado indescritível passa a reinar, o corpo inteiro e a alma e a mente e cada nervo e cada célula e até cada espaço vazio do corpo e da alma e da mente, tudo se junta numa coisa só, tudo se move numa única direção, tudo em tudo, sentidos e intelecto num mesmo estado de iluminação. Tão difícil alcançar esse estado sublime e, quanto mais próximo se chega dele... Gozamos juntos.

Ele era alto, tinha ombros largos, é verdade, mas algumas vezes eu achava que ia esmagar aqueles ossinhos finos quando ficava por cima. O pau, sim. Que pau bonito, apesar de eu não conseguir explicar exatamente o que isso quer dizer. Mas quando eu olhava pro pau dele, era isso que me vinha à cabeça - que pau bonito.

Nós éramos livres, poderíamos ter ficado juntos desde o primeiro dia. Mas ele teria sido meu quarto marido, e isso traz uma certa bagagem chata à vida de uma mulher.

Eu não entendi aquele homem tão perfeito, tão inteligente e tesudo daquele jeito. Algo havia ali, que eu não percebera ainda, não era possível. Então de vez em quando eu resolvia que seríamos somente amigos. Nada de jantar. Almoçamos e pronto. E conversávamos sobre os canais de Amsterdam, sobre a Liberty de Londres e o Hermitage de St. Petersburgo. E o vinho preenchia quase todos os sentidos. Até que ele começava a soprar atrás da minha orelha. Não passava a língua nem nada.

Soprava apenas. Dali pra cama dele - que ficava impreterivelmente no mesmo quarteirão do restaurante marcado - era um pulo. Ele me lambia inteira, e nos breves intervalos, entre a boceta e a boca, sua língua falava outras línguas - francês ou inglês. Eu morria de tesão por ele. Numa tarde ele me contou que me mostraria seu maior tesouro. Eu esperava uma joia russa de família, mas ele chegou com um saquinho puído de pedrinhas coloridas, que ele trouxera do Marrocos, e que despejou sobre a mesa de jantar escura. Chamar aquelas pequenas relíquias de pedrinhas é até blasfêmia. Eram pedacinhos de arte, cada um com um mosaico diferente, um caleidoscópio de uma beleza impressionante. Juntas, aquelas delicadezas eram inspiração para uma canção, um poema, um filme... Fiquei horas olhando para elas, fotografei, ouvi as histórias que aquele homem tinha pra contar, e claro que minha boca foi parar naquele pau duro e lindo. Eu quase gozei só em chupar aquele pau, só de pensar que aquelas pedrinhas sem valor eram o que aquele homem tesudo e milionário considerava sua maior riqueza.

Um dia eu chorei e me disse uma fraude. Tira a roupa, essa tua bocetinha é pequenininha e inchada, a gente tem que abrir pra ver se você tá com tesão, você é uma mulher cheia de mistérios, ele disse, tudo de uma vez. Aí ele me chupou com vontade, enfiou o dedo na minha bunda e eu esqueci que era uma fraude. E era sempre assim. Todas as vezes que eu tentava reclamar da vida, ele me chupava.  Eu até tentava me lembrar que ele era sensível, e colecionava pedrinhas sem valor do Marrocos, mas comecei a achar que a fraude era ele. E comecei a fugir dele. Não adiantou eu tentar desaparecer e não atender telefone nem responder mensagem.

Ele me encontrava, me levava pra almoçar, soprava atrás da minha orelha e me comia. Tive que mudar de cidade, de país. Tive sossego durante uns meses, curtindo a minha melancolia mais que merecida. Até que um dia, em frente à obra de arte "O Fantasma de uma Pulga" do William Blake... Ele apareceu do nada.

Daquela vez ele nem precisou me soprar. E enquanto eu chupava aquele pau lindo e rico ajoelhada no banheiro da Tate Gallery- outras pessoas do lado de fora da casinha ouvindo a gente e eu nem aí - o poema do Carl Sandburg me veio à cabeça:

Maybe he believes me, maybe not

Maybe I can marry him, maybe not.

Maybe the wind in the prairie,

The wind ont hte sea, maybe, can tell,

I will Lay my head on his shoulder

And when He asks me I will say yes,

Maybe.

E fodam-se as minhas neuroses.

quarta-feira,15:42

Ele tinha cheiro de perfume de farmácia,
era só o que eu conseguia pensar até ele cravar os dentes na lateral do meu quadril, e arrastar o canino pela pele que derretia em sua língua,
como eu, me esvaindo de água e ódio do seu perfume barato que parecia vir de todos os lugares.
Lambeu minha virilha, meus pelos com gosto de dia inteiro e jeans, abocanhou minha púbis, e escorreu sua língua grossa porta adentro.
Eu nem sei seu nome, pensei encharcando sua boca, que preenchia cada parte de minha boceta como um polvo,
só queria que ele fosse embora, e me comesse, e fosse embora, e enfiasse o pau inteiro no meu rabo já esfacelado pelos seus dedos sujos,
Então ele me fechou a boca com sua mão áspera e com a outra me meteu seu pau imundo até não caber nem mais uma gota do suor que lhe escorria.
Luis Cláudio, madame. Prazer.

foto: john kacere