Maybe - por Flávia Orlando

Nossas peles livres se conhecendo, se combinando e ficando íntimas, ondas das mesmas sensações se transmitindo pelos dois corpos, chega um momento em que sexo deixa de ser só sexo, um estado indescritível passa a reinar, o corpo inteiro e a alma e a mente e cada nervo e cada célula e até cada espaço vazio do corpo e da alma e da mente, tudo se junta numa coisa só, tudo se move numa única direção, tudo em tudo, sentidos e intelecto num mesmo estado de iluminação. Tão difícil alcançar esse estado sublime e, quanto mais próximo se chega dele... Gozamos juntos.

Ele era alto, tinha ombros largos, é verdade, mas algumas vezes eu achava que ia esmagar aqueles ossinhos finos quando ficava por cima. O pau, sim. Que pau bonito, apesar de eu não conseguir explicar exatamente o que isso quer dizer. Mas quando eu olhava pro pau dele, era isso que me vinha à cabeça - que pau bonito.

Nós éramos livres, poderíamos ter ficado juntos desde o primeiro dia. Mas ele teria sido meu quarto marido, e isso traz uma certa bagagem chata à vida de uma mulher.

Eu não entendi aquele homem tão perfeito, tão inteligente e tesudo daquele jeito. Algo havia ali, que eu não percebera ainda, não era possível. Então de vez em quando eu resolvia que seríamos somente amigos. Nada de jantar. Almoçamos e pronto. E conversávamos sobre os canais de Amsterdam, sobre a Liberty de Londres e o Hermitage de St. Petersburgo. E o vinho preenchia quase todos os sentidos. Até que ele começava a soprar atrás da minha orelha. Não passava a língua nem nada.

Soprava apenas. Dali pra cama dele - que ficava impreterivelmente no mesmo quarteirão do restaurante marcado - era um pulo. Ele me lambia inteira, e nos breves intervalos, entre a boceta e a boca, sua língua falava outras línguas - francês ou inglês. Eu morria de tesão por ele. Numa tarde ele me contou que me mostraria seu maior tesouro. Eu esperava uma joia russa de família, mas ele chegou com um saquinho puído de pedrinhas coloridas, que ele trouxera do Marrocos, e que despejou sobre a mesa de jantar escura. Chamar aquelas pequenas relíquias de pedrinhas é até blasfêmia. Eram pedacinhos de arte, cada um com um mosaico diferente, um caleidoscópio de uma beleza impressionante. Juntas, aquelas delicadezas eram inspiração para uma canção, um poema, um filme... Fiquei horas olhando para elas, fotografei, ouvi as histórias que aquele homem tinha pra contar, e claro que minha boca foi parar naquele pau duro e lindo. Eu quase gozei só em chupar aquele pau, só de pensar que aquelas pedrinhas sem valor eram o que aquele homem tesudo e milionário considerava sua maior riqueza.

Um dia eu chorei e me disse uma fraude. Tira a roupa, essa tua bocetinha é pequenininha e inchada, a gente tem que abrir pra ver se você tá com tesão, você é uma mulher cheia de mistérios, ele disse, tudo de uma vez. Aí ele me chupou com vontade, enfiou o dedo na minha bunda e eu esqueci que era uma fraude. E era sempre assim. Todas as vezes que eu tentava reclamar da vida, ele me chupava.  Eu até tentava me lembrar que ele era sensível, e colecionava pedrinhas sem valor do Marrocos, mas comecei a achar que a fraude era ele. E comecei a fugir dele. Não adiantou eu tentar desaparecer e não atender telefone nem responder mensagem.

Ele me encontrava, me levava pra almoçar, soprava atrás da minha orelha e me comia. Tive que mudar de cidade, de país. Tive sossego durante uns meses, curtindo a minha melancolia mais que merecida. Até que um dia, em frente à obra de arte "O Fantasma de uma Pulga" do William Blake... Ele apareceu do nada.

Daquela vez ele nem precisou me soprar. E enquanto eu chupava aquele pau lindo e rico ajoelhada no banheiro da Tate Gallery- outras pessoas do lado de fora da casinha ouvindo a gente e eu nem aí - o poema do Carl Sandburg me veio à cabeça:

Maybe he believes me, maybe not

Maybe I can marry him, maybe not.

Maybe the wind in the prairie,

The wind ont hte sea, maybe, can tell,

I will Lay my head on his shoulder

And when He asks me I will say yes,

Maybe.

E fodam-se as minhas neuroses.